Homenagem aos pais.:
ANTES QUE ELAS CREÇAM
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos. É que as crianças crescem. Independente de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com estridência alegre, às vezes, com alardeada arrogância.
Mas não crescem todos os dias, de igual maneira: crescem, de repente. Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade, que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.
Ela está crescendo, num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você agora está ali, na porta da discoteca, esperando que não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas.
Essas são as filhas que conseguimos gerar apesar dos golpes do vento, das colheitas das notícias e das ditaduras das horas. E elas crescem, meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.
Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.
(...) Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás para o volante das próprias vidas. (...)
Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer, para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância e doa adolescentes cobertos naquele quarto cheio de colagem, postes e agendas coloridas de pilot. (...)
Elas crescem sem esgotássemos nelas todo nosso afeto.
No principio, subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais páscoas, piscinas e amiguinhas. (...) Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um so9frimento, pois era impossível largar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. (...) Agora é hora de os pais nas montanhas terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.
O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do caminho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos, e que não pode morrer conosco. Por isto os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.
Por isto é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.
(SANT’ANA, Afonso Romano de. Antes que elas cresçam.
Diálogo Médico, São Paulo, Ano 20, n.52, nov/dez/. 1994)
Um comentário:
Hi....deixem seu Comentário!!!
=D
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